Muitos neurodivergentes passaram anos tentando entender porque certas coisas que pareciam simples para os outros exigiam deles um esforço enorme, como organizar uma rotina que parecia óbvia para todo mundo, ler e compreender um texto, conseguir fazer cálculos ou mesmo aprender a escrever. Às vezes esse esforço tem nome: TDAH, dislexia, discalculia, disortografia entre outras formas de funcionamento neurológico. Às vezes o nome só chega na vida adulta, depois de se passar anos longe da escola e convivendo com diagnósticos equivocados de ansiedade e depressão. Porém, ao chegar a um espaço terapêutico que já entende essa diferença de funcionamento muda o que é possível conversar ali dentro.

Uma pesquisa publicada em 2024 na revista Psicologia e Saúde em Debate, ouviu adultos diagnosticados tardiamente com autismo e identificou sentimentos recorrentes após o diagnóstico: alívio, luto pelo tempo perdido tentando "parecer normal" e com o passar do tempo, mais autoacolhimento (Gikovate & Féres-Carneiro, 2024). O achado dialoga com o cenário nacional: o Censo 2022 do IBGE identificou pela primeira vez 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de autismo no Brasil.

Legenda da imagem (a definir).

O que costuma pesar no dia a dia

As dificuldades mais comuns não são sobre "não conseguir", mas sobre o custo de se adaptar não só a um mundo, também às expectativas das pessoas:

Nenhuma dessas questões é falha de caráter ou falta de esforço. São o resultado esperado de um ambiente pouco adaptado a formas diferentes de perceber, sentir e processar o mundo, ou mesmo de familiares, instituições ou profissionais despreparados para lidar com a diversidade.

O que a psicanálise e a psicologia já trazem sobre isso

Leda Mariza Fischer Bernardino, em O que a Psicanálise Pode Ensinar sobre a Criança, Sujeito em Constituição (Escuta, 2006), defende que o diagnóstico, por mais necessário que seja, não esgota quem a pessoa é. A clínica precisa acompanhar a singularidade do sujeito e não reduzi-lo a um conjunto de comportamentos observáveis. Este é um ponto especialmente relevante para quem foi descrito, catalogado e adestrado antes de ser escutado.

Marie-Christine Laznik, em A Voz da Sereia: o Autismo e os Impasses na Constituição do Sujeito (Ágalma, 2004), propõe que a constituição da subjetividade passa por trocas muito precoces entre bebê e cuidador, e compreender essas trocas ajuda a pensar o autismo não como ausência de vida psíquica, mas como uma forma particular de organização dela.

O que essas leituras têm em comum é uma recusa a tratar a neurodivergência como um problema a ser corrigido. O convite é justamente o oposto: entender o funcionamento de cada pessoa a partir dela mesma, não a partir de um padrão externo ao qual ela deveria se ajustar.

Onde a psicoterapia entra

A psicoterapia não existe para "normalizar" o funcionamento neurodivergente. Sua função é acolher o que de fato pesa: o cansaço acumulado de mascarar comportamentos, o luto por anos de diagnósticos errados, os conflitos familiares e profissionais que muitas vezes se organizam em torno da diferença ou a dificuldade em construir uma autoimagem descolada do diagnóstico, não se resumir ou se encaixar. É estimular a particularidade, aquilo que torna o sujeito, sujeito.

Por que o vínculo com o profissional importa tanto aqui

Para quem já enfrentou julgamentos por "não fazer esforço suficiente", ser constantemente implicado a se adaptar ou ouvir que é "uma pessoa difícil", chegar a um espaço onde o próprio jeito de se comunicar, de processar informações ou de reagir a estímulos não precisa ser justificado a cada sessão muda profundamente a experiência da terapia. Porém, é muito importante deixar claro que isso se constrói com tempo e continuidade, não é apenas uma questão de boa vontade pontual, mas de um compromisso sustentado ao longo do processo, permitindo que temas mais profundos apareçam quando a pessoa já não precisa gastar energia se explicando.

Para fechar

A psicanálise entende que a angústia não se resolve tentando encaixar quem se é em um molde que nunca coube.

O sujeito se transforma quando encontra um espaço de escuta que reconhece sua singularidade, permitindo que sua história seja elaborada a partir do que ela realmente é, e não se uma expectativa.

Perguntas frequentes

Não. Você pode buscar psicoterapia mesmo sem diagnóstico formal, inclusive para investigar dúvidas sobre o próprio funcionamento.

Não. O espaço é para que você se comunique do seu jeito, no seu tempo.

Sim. Muitas pessoas relatam alívio ao finalmente entenderem seu próprio funcionamento, mesmo depois de décadas.