Há sofrimentos que não cabem em uma crise isolada. Eles atravessam anos, alternam entre períodos de maior estabilidade e momentos de intensa desorganização, exigindo de quem os vive uma reorganização contínua da própria vida, e de quem está ao seu entorno. Trabalho, escola, relações, família, tratamento e rotina precisam ser frequentemente reinventados. Não porque algo tenha "dado errado" de forma definitiva, mas porque esse é o ritmo possível para quem convive com um sofrimento psíquico grave ou persistente.

O que a ciência tem mostrado sobre cuidado a longo prazo

Uma revisão publicada em 2023 na Frontiers in Psychiatry (Killaspy; Dalton-Locke, 2023) reuniu evidências de estudos de longo prazo sobre serviços de reabilitação em saúde mental. Os achados indicam que serviços organizados em torno de uma abordagem orientada à recuperação,abordando dimensões colaborativas, individualizadas e centrada nos objetivos do sujeito, estão associados a melhores resultados de autonomia e estabilidade ao longo do tempo, mesmo em quadros de maior gravidade.

No Brasil, o Ministério da Saúde informou que, até dezembro de 2024, 3.019 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) estavam habilitados no país, superando a meta prevista no Plano Nacional de Saúde para o período (Ministério da Saúde, 2024). Esse dado mostra que a rede pública de cuidado continuado a quem vive sofrimento psíquico grave e persistente é uma realidade em expansão, mesmo que, na prática cotidiana, o acompanhamento psicoterapêutico individual siga sendo uma peça importante e, muitas vezes, escassa dentro desse cuidado.

Como esse sofrimento costuma se apresentar

O que a psicanálise e a psicologia têm a dizer

A psiquiatra Nise da Silveira, em Imagens do Inconsciente (SILVEIRA, 1981), documentou décadas de trabalho com pessoas em sofrimento psíquico grave demonstrando que a produção simbólica, por meio de obras de arte, permanece viva e é um caminho legítimo de expressão e de cuidado, contrariando a ideia de que a gravidade do quadro esvazia a subjetividade da pessoa.

Ana Cristina Figueiredo, em Vastas Confusões e Atendimentos Imperfeitos: a clínica psicanalítica no ambulatório público (FIGUEIREDO, 1997), discute como a escuta psicanalítica pode se sustentar mesmo fora do consultório privado tradicional, em contextos de saúde pública e diante de quadros clínicos complexos. Isso indica que o rigor clínico da escuta e a adaptação do profissional ao contexto real do paciente não são incompatíveis, podem e devem ser complementares.

Antonio Quinet, em Psicose e Laço Social (QUINET, 2006), retoma a discussão sobre como pessoas em sofrimento psicótico buscam, cada uma à sua maneira, formas de se inserir no laço com o outro. Dessa forma, o autor reforça que o trabalho clínico não é "corrigir" essa busca, mas acompanhá-la e sustentá-la.

O papel da psicoterapia diante desse sofrimento

A psicoterapia não se propõe a eliminar a complexidade do quadro, nem substituir o acompanhamento psiquiátrico quando ele é necessário. Sua função é oferecer um espaço estável e de continuidade, onde o paciente pode elaborar sua experiência, seja nos períodos de crise ou nas fases de estabilidade. Seja o cansaço que advém da convivência de um sofrimento que não segue calendário ou daquilo que segue vivo e desejante ao sujeito, indo além do diagnóstico. É um trabalho de sustentação, não de urgência.

Minha trajetória inclui experiência clínica em contextos hospitalares de alta complexidade, incluindo psiquiatria e acompanhamento de pessoas em sofrimento psíquico severo e persistente no CAPS. Essas experiências fazem parte da minha compreensão para com esse cuidado: é um processo que exige tempo, continuidade e escuta atenta às oscilações reais da vida, e não a expectativa de uma trajetória linear rumo a uma "cura" definitiva.

A importância do vínculo terapêutico

Em quadros que se estendem por longos períodos, o vínculo com quem escuta ganha um peso particular. Não se trata de um encontro pontual, mas de uma relação que se constrói ao longo do tempo, capaz de sustentar tanto os momentos de maior desorganização quanto os períodos de estabilidade. Esse vínculo, quando cuidadosamente construído, se torna ele próprio um recurso terapêutico, capaz de salvar vidas. Aprendi que o vínculo com profissional é o elemento mais importante do cuidado com pacientes que convivem com transtornos mentais.

Uma direção possível para a angústia

A psicanálise não promete apagar o sofrimento nem prever quando ele vai ceder. O que ela oferece é uma direção: a possibilidade de que, mesmo em meio à oscilação e à dificuldade, a pessoa encontre um lugar de fala onde sua experiência possa ser escutada como algo que faz sentido dentro de sua própria história.

Se você reconhece algo do que foi descrito aqui, vamos conversar. Marcar uma conversa inicial não é um compromisso com nada além disso: é um espaço para você entender como esse acompanhamento pode fazer sentido no seu momento.

Se você está em crise ou em risco imediato, procure o CVV (Centro de Valorização da Vida) pelo telefone 188, disponível 24 horas, ou o CAPS mais próximo da sua região.

Legenda da imagem (a definir).

Perguntas frequentes

Preciso ter um diagnóstico psiquiátrico fechado para iniciar a terapia? Não. O acompanhamento psicanalítico não exige um laudo ou diagnóstico prévio para começar. A psicoterapia pode, inclusive, ocorrer em paralelo ao acompanhamento psiquiátrico, sendo altamente recomendável.

Como funciona o sigilo se eu já sou acompanhado em um CAPS ou por outro profissional? O sigilo profissional é mantido em qualquer circunstância, conforme o Código de Ética do Psicólogo. Havendo interesse da pessoa em que haja comunicação entre profissionais envolvidos no cuidado, isso só ocorre mediante autorização explícita.

As sessões por Google Meet funcionam bem para quem está em um momento de mais instabilidade? Na maioria dos casos, sim, pois o formato on-line preserva a regularidade do encontro, o que é especialmente valioso em quadros persistentes. Em situações específicas, a viabilidade é conversada caso a caso.

É possível ter atendimento presencial ou visita domiciliar em Salvador? Visitas domiciliares em Salvador são avaliadas caso a caso, conforme a necessidade e a viabilidade da situação.