Morar fora do Brasil raramente é só uma mudança de endereço. É reaprender a fazer as coisas mais simples como pedir comida, marcar um médico ou entender uma piada em idioma e códigos culturais que não são os seus. É comemorar a distância as conquistas importantes de quem sempre esteve por perto. É, às vezes, sentir que não pertence inteiramente a lugar nenhum: nem ao Brasil que ficou para trás, nem ao país que ainda não é totalmente seu.

O que a ciência mostra sobre a saúde mental de quem vive fora do Brasil

Um estudo publicado em 2023 no periódico internacional Journal of Immigrant and Minority Health acompanhou mulheres brasileiras imigrantes nos Estados Unidos e encontrou um dado expressivo: mais da metade delas apresentava sintomas de depressão em nível clinicamente relevante (Allen; Kunicki; Greaney, 2023). A pesquisa identificou ainda que experiências de discriminação estavam associadas a mais sintomas depressivos, enquanto redes de apoio social funcionavam como fator de proteção.

Em paralelo, o Ministério das Relações Exteriores estima que cerca de 4,9 milhões de brasileiros vivem hoje fora do país, com Estados Unidos, Portugal, Paraguai, Reino Unido e Japão entre os principais destinos (Ministério das Relações Exteriores, 2024). São muitas histórias de saudade, adaptação e reconstrução acontecendo ao mesmo tempo, em fusos horários diferentes.

As dimensões mais comuns dessa experiência

Cada trajetória de quem vive fora tem contornos próprios, mas algumas questões aparecem com frequência no consultório:

O que a psicanálise e a psicologia trazem sobre migração e exílio

A psicanálise tem uma longa tradição de pensar o que a experiência migratória mobiliza psiquicamente. León Grinberg e Rebeca Grinberg, em Migração e Exílio: Estudo Psicanalítico, descrevem a migração como um processo que reedita ansiedades muito primitivas: de perda, de separação, de reconstrução de identidade. Esse processo pode tanto adoecer quanto, quando bem elaborado, amadurecer o psiquismo (Grinberg; Grinberg, 2007).

No Brasil, a pesquisadora Taeco Toma Carignato, ao lado de Miriam Debieux Rosa e Raul Albino Pacheco Filho, organizou uma das referências nacionais sobre o tema, reunindo estudos clínicos sobre migrantes e as marcas que o deslocamento deixa na constituição subjetiva (Carignato; Rosa; Pacheco Filho, 2002). Sylvia Dantas DeBiaggi, também brasileira, aprofundou como gênero, cultura e vínculos familiares se reorganizam quando uma pessoa ou uma família inteira atravessa fronteiras (DeBiaggi; Paiva, 2004).

Um ponto comum a esses autores: migrar não é um evento único que se resolve com o tempo, mas um processo contínuo de luto e reconstrução, que pode ser atravessado de formas muito diferentes dependendo do apoio emocional disponível, inclusive o apoio de um espaço terapêutico que compreenda essa experiência.

O papel da psicoterapia diante dessas dificuldades

A psicoterapia não tem o poder de eliminar a distância nem de apagar a saudade, ela oferece um espaço regular para elaborar o que a experiência de morar fora mobiliza: dar nome aos sentimentos ambivalentes, entender os próprios padrões de adaptação, revisitar o que ficou mal resolvido antes da partida e construir um sentido de identidade que não dependa de estar fisicamente em um único lugar. Para quem vive fora, isso costuma significar também lidar com decisões concretas como ficar ou voltar? Trazer a família ou não? Como manter os vínculos brasileiros vivos? Sem que essas escolhas sejam feitas só por impulso ou só por medo.

A importância do vínculo terapêutico

Quando o consultório também mudou de fuso horário, de idioma e de cultura, o vínculo com quem escuta ganha um peso particular. Um espaço terapêutico em português, com alguém que compreende referências brasileiras sem que seja preciso explicá-las, pode ser um dos poucos lugares onde a pessoa não precisa traduzir a própria experiência antes de ser entendida. Esse vínculo de confiança, construído ao longo do tempo, é parte do que sustenta o processo.

Uma direção possível para a angústia

A psicanálise não promete apagar a saudade. Também não promete oretorno definitivo a um lugar, pois muitas das vezes esse lugar, que já foi deixado não existe mais exatamente daquela forma. O que a direção do tratamento pode oferecer é a possibilidade de habitar a própria história com menos angústia: reconhecer o que foi perdido, sustentar o que foi construído e seguir vivendo de qualquer lugar com mais liberdade interna.

Legenda da imagem (a definir).

Perguntas frequentes

Preciso estar no Brasil para fazer terapia com você? Não. O atendimento é feito por Google Meet, o que permite acompanhamento independente do país ou fuso horário em que você esteja. Os horários de atendimento seguem o horário de Brasília: segunda a quinta, das 8h às 22h, e sexta, das 8h às 17h. Considere a diferença de fuso na hora de agendar.

O sigilo profissional vale mesmo eu morando em outro país? Sim. O sigilo profissional do psicólogo é um princípio ético que se aplica ao atendimento independentemente de onde o paciente esteja localizado.

Não tenho nenhum diagnóstico de saúde mental, ainda assim posso procurar terapia? Sim. Não é necessário ter um diagnóstico, laudo ou "motivo grave" para iniciar um processo terapêutico. Dificuldades de adaptação, saudade intensa, sobrecarga emocional ou simplesmente a vontade de ter um espaço de escuta já são razões legítimas para buscar acompanhamento.