Receber o diagnóstico de uma doença crônica não é um evento que se encerra em si mesmo, é o início de uma convivência diária com exames, medicações, limites físicos e uma relação com o tempo que muda de forma definitiva. Quem vive essa realidade sabe que a vida não para, entretanto ela não continua exatamente como antes: reorganiza-se em torno de rotinas de cuidado, consultas e uma atenção ao corpo que nem sempre é bem-vinda.
O que os dados mostram
No Brasil, mais da metade da população adulta relata conviver com pelo menos uma condição crônica: a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019, do IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, mostrou que 52% das pessoas de 18 anos ou mais informaram diagnóstico de ao menos uma doença crônica (IBGE, 2020). São dezenas de milhões de brasileiros que lidam, no cotidiano, com hipertensão, diabetes, doenças autoimunes, problemas renais, cardíacos ou reumatológicos, e cada doença tem sua própria forma de significar cada sujeito.
A pesquisa também confirma algo que a clínica observa com frequência: o sofrimento psíquico não é um efeito colateral incomum da doença física, mas parte do próprio processo de adoecer. Um estudo de coorte publicado no periódico JAMA Network Open, que acompanhou mais de 40 mil adultos ao longo de vários anos, identificou que pessoas com depressão e ansiedade apresentaram risco significativamente maior de desenvolver novas condições crônicas ao longo do tempo, em comparação com quem não tinha esses quadros (Bobo et al., 2022). A relação entre corpo e mente, aqui, não é metáfora: é uma via de mão dupla que a psicoterapia pode ajudar a atravessar.
As muitas dimensões de conviver com uma doença crônica
Cada diagnóstico tem sua especificidade médica, mas algumas experiências psíquicas atravessam boa parte de quem vive com uma condição crônica:
- A necessidade de reorganizar a própria identidade em torno de uma condição que não escolheu ter, e que muitas vezes não é visível para os outros.
- O cansaço de precisar explicar, repetidas vezes, porque faltou, porque cancelou, porque não pode fazer determinadas coisas, conhecido como “trabalho invisível” da doença.
- Momentos de raiva, negociação ou tristeza diante de exames, crises ou piora de sintomas, que não seguem uma ordem previsível.
- A sensação de que o corpo se tornou, ao mesmo tempo, fonte de cuidado e de desconfiança, um corpo que precisa ser constantemente vigiado.
- O impacto nas relações afetivas e no trabalho, seja pela necessidade de adaptações, seja pelo medo de ser visto como "menos capaz".
- A dificuldade de encontrar espaços em que seja possível falar da doença sem reduzir-se a ela.
Nomear essas dimensões não é sugerir que todas apareçam da mesma forma ou com a mesma intensidade, pois cada pessoa organiza sua experiência à sua maneira.
O que a psicanálise e a psicologia trazem para essa experiência
A psicanalista Maria Helena Fernandes, em seu livro Corpo, discute como o corpo doente convoca o sujeito a uma reelaboração simbólica: a doença interrompe a ilusão de um corpo previsível e obriga a uma nova relação com os próprios limites (Fernandes, 2003). Essa reelaboração não é automática, na verdade é um trabalho psíquico, e é justamente esse trabalho que a psicoterapia pode acompanhar.
Maria Rita Kehl, em O tempo e o cão, propõe que a experiência contemporânea de adoecer também é uma experiência de tempo: a cronicidade obriga a pensar em uma temporalidade que não tem o desfecho esperado pela cultura da cura rápida e da produtividade constante (Kehl, 2009). Para quem convive com uma doença crônica, aprender a habitar esse tempo é parte do processo terapêutico, sem a promessa de retornar ao que era o "antes da doença”.
Já o psicanalista Joel Birman, em Mal-estar na atualidade, discute como as novas formas de subjetivação na sociedade contemporânea impõem exigências de desempenho e autossuficiência que tornam ainda mais difícil admitir fragilidade, dependência de cuidado ou limitação física (Birman, 2001). Reconhecer esse mal-estar social ajuda a entender por que pedir ajuda, muitas vezes, é mais difícil do que deveria ser.
O papel da psicoterapia diante dessas dificuldades
A psicoterapia não substitui o acompanhamento médico nem promete controlar os aspectos clínicos da doença, ela oferece um espaço para elaborar o que a rotina de exames e tratamentos raramente permite parar para sentir. É um lugar onde é possível nomear o cansaço, a raiva, o luto por capacidades que mudaram sem a pressão de manter uma postura de força o tempo todo. Também é um espaço para pensar em decisões práticas sobre trabalho, relações, autocuidado e tratamento que a doença crônica impõe, sem que essas decisões precisem ser tomadas sozinhas ou na impulsividade.
A importância do vínculo terapêutico
Para quem convive com uma condição de saúde contínua, a relação com profissionais de saúde costuma ser marcada por protocolos, tempo curto de consulta e, por vezes, um olhar que se concentra mais no órgão ou no exame do que na pessoa. O vínculo terapêutico se propõe diferente: um espaço de continuidade, onde a pessoa é ouvida em sua totalidade, não apenas como portadora de um diagnóstico, mas como alguém que segue construindo sentido para sua própria vida, mesmo com o que ela impõe de limitação.
Um fechamento possível
A psicanálise não promete eliminar a angústia de conviver com uma condição que não tem data para acabar. Ela oferece a possibilidade de deslocar a relação com essa angústia, de um lugar de urgência constante, para um lugar onde também é possível pensar, elaborar e, aos poucos, encontrar um jeito de habitar a própria vida que não seja só em função da doença.
Perguntas frequentes
Não. Não é necessário apresentar laudo ou explicar detalhes clínicos da condição. O espaço terapêutico acompanha como você vive a experiência, não substitui nem exige a documentação do tratamento médico.
Sim. O atendimento por Google Meet permite manter a continuidade da terapia mesmo em dias de mais cansaço, dor ou dificuldade de deslocamento, sem a exigência de sair de casa.
Visitas domiciliares em Salvador são avaliadas caso a caso, considerando a situação específica de cada pessoa.
O atendimento não é feito por convênio, mas é emitido recibo de prestação de serviço psicológico, que pode ser utilizado para solicitar reembolso junto ao seu plano de saúde, conforme a Lei nº 9.656/98 e as normas da ANS. É importante frisar que o reembolso segue as regras de cada operadora, entre em contato com o seu plano para verificar as condições.