Acho que sempre fui uma criança de ouvir mais do que falar. Gostava de criar histórias com os brinquedos, muito influenciado pelos animes, desenhos e novelas que acompanhava. Quando aprendi a ler, os livros e depois os mangás tornaram-se um lugar de refúgio. Percebo hoje que, antes mesmo de conhecer qualquer teoria, já me interessavam as narrativas inventadas ou transmitidas, pois elas me ajudam a entender a experiência humana.
Na época do vestibular, desejava cursar Ciências Sociais porque queria ser arqueólogo. O que me atraía era a possibilidade de compreender como o passado permanece presente e estrutura quem somos. Não fui aprovado, mas ingressei, por meio do ProUni, no curso de Letras – Português da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Se antes buscava compreender o passado por meio das narrativas, encontrei na linguagem outra forma de investigar algo que também sustenta as relações humanas. A literatura, os estudos da língua e da comunicação passaram a ocupar esse lugar.
Durante a graduação, trabalhei como auxiliar administrativo na redação de um jornal. Foi ali que as histórias deixaram de ser apenas ficcionais. Passei a acompanhar a produção das notícias e em como a linguagem registra o cotidiano e produz sentidos sobre o presente. Conviver com esse ambiente ampliou meu interesse pela estrutura da sociedade, e nas formas em que os discursos são produzidos, transmitidos e seus efeitos na esfera social.
À medida que me aproximava da conclusão da graduação, compreendi que não me reconhecia na sala de aula. Costumava dizer que não tinha confiança para ocupar aquele espaço. Escolhi os bastidores, trabalhando com revisão de textos no mercado educacional. Aprendi sobre os processos de produção e transmissão do conhecimento. Também aprendi que a revisão de textos não era o lugar onde desejava permanecer.
De forma estratégica, enquanto me afastava da escrita sobre o outro, aproximava-me cada vez mais da escuta do outro. Esse movimento tornou-se mais evidente quando inicie no curso de psicologia nas Faculdades Pequeno Príncipe, sendo financiado pelo Fies. Nesse período atuei com recrutamento e seleção de profissionais de T.I. e marketing, notava que as entrevistas de seleção extrapolavam a análise de currículos. Cada encontro era atravessado por expectativas e maneiras de narrar a própria trajetória. Também percebi aos poucos, que meu interesse estava menos em selecionar candidatos e mais em escutá-los. Foi nesse contexto que a psicologia deixou de ser apenas uma possibilidade e passou a constituir um caminho.
Logo nos primeiros períodos fui presidente do centro acadêmico, que além de representar os alunos do curso, levantávamos a bandeira da diversidade na faculdade, realizando eventos e diálogos com representantes de grupos minoritários. Fui também monitor de psicopatologia, área da psicologia que mantenho interesse até hoje. Participei de eventos científicos, apresentei trabalhos e apliquei projetos com os colegas em locais como orfanatos e ONGs.
Ao concluir a graduação em Psicologia, ingressei na Residência Multiprofissional em Saúde da Criança e do Adolescente das Faculdades Pequeno Príncipe. A residência deslocou profundamente minha forma de compreender o sofrimento e o cuidado. Nos hospitais e nos Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenis (CAPSi), acompanhei histórias marcadas por adoecimento, perdas, tratamentos, altas, interrupções e recomeços. Estive presente em comunicações de notícias difíceis, em reuniões de equipe, em momentos de despedida e também em festas, brincadeiras e pequenas conquistas cotidianas.
Essas experiências mostraram que o sofrimento psíquico não pode ser compreendido apenas por classificações diagnósticas ou protocolos assistenciais. Cada criança, adolescente e família chegava com uma história singular, construída por vínculos, perdas, expectativas e modos próprios de significar a experiência. Aprendi que a escuta clínica exige sustentar aquilo que nem sempre encontra palavras imediatas e que o cuidado começa quando há espaço para que uma narrativa possa ser construída.
Foi também nesse percurso que a clínica deixou de representar apenas um campo de atuação profissional e passou a reunir interesses que me acompanhavam desde muito antes da psicologia: a linguagem, a escuta e a tentativa de compreender como as pessoas produzem sentidos para suas experiências. Se, na infância, eram as histórias ficcionais que despertavam minha curiosidade, na clínica passaram a ser as histórias reais, marcadas pelo sofrimento, pela subjetividade e pelas diferentes formas de existir.
Minha prática clínica tem ampliado essas inquietações. Algumas questões que surgem no cotidiano do atendimento não se encerram na própria clínica; ao contrário, exigem investigação, diálogo com a produção científica e aprofundamento teórico. Tenho percebido que determinadas experiências despertam perguntas que permanecem abertas e que a pesquisa constitui um espaço privilegiado para elaborá-las. Nesse sentido, o interesse atual pelo mestrado, sendo a próxima meta, não nasce de uma mudança de direção, mas de uma continuidade de um percurso construído ao longo dos anos.