Existe um tipo específico de cansaço em precisar explicar quem você é antes de se relacionar com qualquer outra pessoa. Explicar o nome, o pronome, a orientação sexual, a família que talvez não entenda, e principalmente o corpo que talvez não seja reconhecido. Para muitas pessoas LGBTI+, esse esforço de tradução acontece o tempo todo, em muitos lugares, principalmente nos espaços dedicados à saúde mental, mas um espaço de psicoterapia que não exige essa explicação prévia já começa sendo diferente.
Um estudo conduzido por pesquisadoras da UFMG e da UFRJ em 2021, encontrou uma prevalência de depressão de 24,8% entre pessoas LGBTI+ no Brasil, sendo mais que o dobro da média nacional registrada pela Pesquisa Nacional de Saúde no mesmo período. O mesmo levantamento identificou que 36% das pessoas entrevistadas relataram episódios semanais de discriminação, inclusive dentro de serviços de saúde (Torres et al., 2021). Não é a identidade que adoece; é o ambiente que repetidamente não acolhe.
O que costuma pesar no dia a dia
Não é só uma coisa. É a soma de pequenas negociações diárias: decidir o que contar e para quem, sentir o corpo tenso ao entrar em um consultório novo, notar o próprio jeito de falar, se adaptando dependendo de quem está por perto. Algumas das questões que aparecem com mais frequência na clínica vindas desse público:
- A sensação de estar sempre em estado de alerta, mesmo em ambientes considerados seguros.
- Conflitos familiares que não se resolvem, mas também não desaparecem, permanecendo latentes.
- Dificuldade em confiar plenamente em vínculos afetivos, por medo de repetir experiências de rejeição.
- Um cansaço acumulado de precisar justificar a própria existência, mesmo quando ninguém pergunta.
Nenhuma dessas questões é sinal de fragilidade pessoal. São respostas compreensíveis a um contexto social que ainda cobra explicações demais de quem simplesmente está tentando viver.
O que a psicanálise e a psicologia já trazem sobre isso
Jurandir Freire Costa, em A Face e o Verso: Estudos sobre o Homoerotismo II (Escuta, 1995), argumenta que o sofrimento historicamente associado à homossexualidade não nasce de uma suposta anormalidade psíquica, mas da forma como a própria linguagem médica e psiquiátrica moldou, ao longo do século XIX e XX, a ideia do que seria "normal" e o "patoloógico" com relação ao desejo sexual. Somos bordados por palavras, e elas nos acompanham por nossa vida, portanto desconstruir esse vocabulário é também uma forma de aliviar o sofrimento que ele produziu.
Maria Rita Kehl, em O Tempo e o Cão: a Atualidade das Depressões (Boitempo, 2009), embora não trate especificamente de sexualidade, oferece uma chave importante para entender por que o não reconhecimento social pesa tanto. Para a autora, boa parte do sofrimento psíquico contemporâneo tem uma dimensão social, não apenas individual. Quando o entorno nega ou invisibiliza uma identidade, a pessoa perde parte do apoio simbólico que sustenta seu próprio sentido de existir, podendo causar um estado depressivo persistente.
Tania Rivera, em Psicanálise Antropofágica: Identidade, Gênero, Arte (Artes e Ecos, 2020), defende que a clínica psicanalítica precisa acompanhar as transformações da cultura em relação a gênero e sexualidade, em vez de julgá-las a partir de normas fixas e universais. A diversidade de identidades não é um problema a ser resolvido pela teoria, é a própria teoria que precisa se atualizar., portanto a psicanálise deve ser ativa, alinhada ao contemporâneo.
Nenhuma dessas leituras promete resolver o preconceito do mundo, mas todas apontam para o mesmo lugar:
o sofrimento não está na identidade da pessoa, está no que ela precisou fazer sozinha para sobreviver a um ambiente que nem sempre a reconheceu.
Onde a psicoterapia entra
A psicoterapia não tem como função "aceitar" a identidade de alguém, é oferecer um espaço em que essa identidade não precisa ser negociada a cada sessão, permitindo que o trabalho psíquico se volte para o que realmente dói, como os efeitos acumulados do preconceito, os conflitos familiares, o cansaço de se explicar, o luto por vínculos que não se sustentaram, a dificuldade de construir uma narrativa própria sobre si quando faltaram referências, e outros sofrimentos associados.
Por que o vínculo com o profissional importa tanto aqui
Para essa comunidade, o vínculo terapêutico carrega um peso particular, pois muitas vezes ele é o primeiro espaço adulto onde a pessoa não precisa se policiar. Porém, isso se constrói com tempo, com continuidade e com um profissional que já entende o contexto sem precisar de explicações básicas a cada sessão. É esse acúmulo de confiança, sessão após sessão, que permite que temas mais difíceis apareçam e sejam aprofundados.
Perguntas frequentes
Preciso explicar minha orientação ou identidade de gênero logo na primeira sessão? Não. Você define o ritmo do que quer compartilhar e quando.
Ainda não tenho certeza sobre minha orientação ou identidade, posso procurar terapia mesmo assim? Sim. Não é preciso ter certezas para começar. A terapia pode, inclusive, ser um espaço para elaborar essas dúvidas com calma.
Já tive experiências ruins com profissionais de saúde. Como sei que aqui será diferente? É uma preocupação legítima, e você pode trazê-la logo no início. O atendimento parte do seu contexto, sem exigir que você explique o básico sobre si a cada sessão — o ritmo e os temas são construídos junto, com continuidade.
Uma direção possível para a angústia
A psicanálise entende que a angústia não desaparece porque alguém "supera" um trauma de uma vez por todas. Essa angústia se transforma quando encontra um lugar para ser dita, ouvida e elaborada ao longo do tempo, principalmente sem pressa e sem julgamento. Para quem passou a vida se explicando ou se escondendo, talvez a primeira forma de cuidado seja justamente essa: um espaço onde não é preciso se justificar para existir.